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Algumas palavras
(por
Jonas Bloch)
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O que é a Estrada Real?
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Por terem constituído, durante longo tempo, as únicas
vias autorizadas de acesso à região das reservas auríferas
e diamantíferas da capitania das Minas Gerais, os caminhos
reais adquiriram, já a partir da sua abertura, natureza oficial.
A circulação de pessoas, mercadorias, ouro e diamante
era obrigatoriamente feita por eles, constituindo crime de lesa-majestade
a abertura de novos caminhos. O interesse fiscal, base da política
metropolitana para a região mineradora da colônia, prevalecia
sobre qualquer outro: cumpria, antes de tudo, ter as rotas de comunicação
com as minas devidamente controladas e fiscalizadas, para que nelas
se pudesse extrair uma massa cada vez maior de tributos para o tesouro
real. O nome Estrada Real passou a aludir, assim, àquelas vias
que, pela sua antiguidade, importância e natureza oficial, eram
propriedade da Coroa metropolitana. Durante todo o século XVIII,
e também em parte do XIX, quando a era mineradora já
se fora e os caminhos se tornaram livres e empobrecidos, as estradas
reais foram os troncos viários principais do centro-sul do
território colonial.
Ao longo dos caminhos reais espalharam-se os antigos registros,
postos fiscais de controle, alguns dos quais ainda podem ser apreciados
na atualidade. Eram de diversos tipos: registros do ouro, que fiscalizavam
o transporte do metal e cobravam o quinto; registros de entradas,
que cobravam pelo tráfego de pessoas, mercadorias e animais;
registros da Demarcação Diamantina, responsáveis
pelo severo policiamento do contrabando e pela cobrança dos
direitos de entrada na zona diamantífera; e contagens, que
tributavam o trânsito de animais. Os prédios dos registros
eram instalados em locais estratégicos dos caminhos: passagens
entre serras, desfiladeiros, margens de cursos de água. No
seu interior se colocava o pessoal empregado: um administrador,
um contador, um fiel e dois ou quatro soldados. Um portão
com cadeado fechava a estrada.
As estradas reais foram, ainda, os eixos principais do intenso
processo de urbanização do centro-sul brasileiro.
Ao longo do seu leito ou nas suas margens se distribuíram
as centenas de arraiais, povoados e vilas em que se organizou a
massa populacional envolvida com a economia da mineração
e com as economias a ela associadas. O povoado à beira do
caminho, com o cruzeiro, a capela, o pelourinho, o rancho de tropas,
a venda, a oficina e as casas de pau-a-pique simbolizou, durante
longo tempo, o processo de nucleação urbana do centro-sul
da colônia. Povoados e vilas típicos foram visitados
e descritos pelos viajantes europeus do século XIX, que nos
deixaram páginas e páginas de notas de viagem sobre
as paisagens e os núcleos urbanos que encontraram nas suas
jornadas pelos caminhos coloniais brasileiros.
No auge da mineração, esses caminhos se viram percorridos
por imigrantes paulistas, baianos, pernambucanos e europeus; por
tropeiros do sul e de São Paulo; por boiadeiros do rio São
Francisco e do rio das Velhas; por sertanistas da Bahia e das vilas
paulistas; por escravos negros e índios; por mascates, administradores
reais, homens do fisco, soldados mercenários e milícias
oficiais.
A expansão originária dos primeiros grandes caminhos
do centro-sul do território colonial conformou um dos mais
significativos movimentos de apropriação do interior
brasileiro e de sua integração com a faixa litorânea.
Ampliando a base territorial da América portuguesa, as vias
hoje reunidas sob o nome de Estrada Real foram, assim, fundamentais
na história do povoamento e da colonização
de vastas regiões do território brasileiro, tornando-se
verdadeiros eixos históricos-culturais de construção
de parte da nossa história.
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Texto de Márcio Santos
Pesquisador de rotas históricas e autor de Estradas Reais:
introdução ao estudo dos caminhos do ouro e do diamante
no Brasil (Belo Horizonte: Editora Estrada Real, 2001).
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